A segurança no centro cirúrgico depende de uma cadeia rigorosa de etapas: limpeza, desinfecção, inspeção, esterilização e conservação. No entanto, dois estudos brasileiros publicados recentemente revelaram um cenário que merece atenção: mesmo após todo o processamento, muitos instrumentais continuam apresentando falhas visíveis e invisíveis, como manchas, oxidação, alteração de cor e até resíduos internos.
Os achados reforçam que a esterilização sozinha não garante segurança. A qualidade final do instrumental depende do conjunto completo de práticas executadas na CME — e de uma conservação adequada antes e depois do uso.
1. O que os estudos encontraram?
As pesquisas analisaram instrumentais de hospitais públicos, privados e filantrópicos, totalizando mais de 900 itens.
Os resultados chamam atenção:
- 41% dos instrumentais apresentaram manchas
- 35% tiveram alteração de cor
- 15% mostraram oxidação ou corrosão
- 66% das cânulas reutilizáveis tinham resíduos internos
- 33% apresentaram detritos mesmo após a limpeza ultrassônica
Esses resultados foram observados em hospitais com lavadora ultrassônica e autoclaves funcionando corretamente.
Isso mostra que o problema não está nos equipamentos, mas nos detalhes do processo.
2. Por que as falhas acontecem?
As principais causas apontadas pelos pesquisadores envolvem fatores rotineiros, muitas vezes negligenciados devido à correria do ambiente hospitalar:
• Qualidade da água: Água com excesso de minerais ou impurezas pode causar manchas, alterar a cor do aço e acelerar a oxidação.
• Tipo de detergente utilizado: Somente detergentes adequados para instrumentais cirúrgicos devem ser usados. Detergentes comuns podem deixar resíduos ou danificar a camada passiva do aço.
• Ausência de escovação mecânica: Instrumentais complexos — como cânulas, pinças e materiais com ranhuras, acumulam sujidades que não saem apenas com imersão ou ultrassônica.
A escovação é a etapa mais crítica para evitar resíduos e biofilmes.
• Secagem inadequada: Umidade aprisionada gera oxidação, manchas e comprometimento da integridade do instrumental.
• Armazenamento: Locais inadequados aceleram corrosão e podem contaminar instrumentos já esterilizados.
• Reutilização acima do permitido: Cada fabricante determina limites seguros de reuso. Desrespeitar essa orientação aumenta falhas, riscos e danos.
3. O que é biofilme e por que ele preocupa?
Os estudos identificaram presença de biofilmes em instrumentais que já haviam sido esterilizados.
Biofilmes são estruturas altamente resistentes, capazes de:
- sobreviver ao processo de limpeza
- sobreviver à ultrassônica
- resistir até ao vapor da autoclave
Isso significa que um instrumental pode parecer limpo, mas ainda manter micro-organismos protegidos por essa camada.
O biofilme está diretamente associado à:
- infecção de sítio cirúrgico
- complicações pós-operatórias
- maior tempo de internação
A melhor forma de prevenção continua sendo limpeza imediata + escovação correta.
4. A importância da inspeção interna
Um dos pontos mais relevantes dos estudos foi a avaliação feita com boroscópios, que permitiram visualizar áreas internas das cânulas de lipoaspiração.
Mesmo após esterilização completa, foram encontrados:
- resíduos de gordura
- sangue seco
- sujidades aderidas
- áreas de oxidação invisíveis externamente
O boroscópio não é obrigatório nas rotinas hospitalares brasileiras, mas os estudos mostram que sua adoção aumenta drasticamente a segurança, principalmente em materiais com canais internos.
5. Conservação: o outro lado da segurança
Esterilizar é essencial, mas conservar corretamente é determinante para a durabilidade e segurança do instrumental.
A conservação inclui:
• Água adequada: Evitar minerais e resíduos.
• Detergentes específicos: Compatíveis com aço cirúrgico.
• Escovação mecânica rigorosa: Principal defesa contra sujidades e biofilme.
• Secagem total: Sem umidade residual.
• Armazenamento ideal: Ambiente limpo, seco e protegido.
• Respeito aos ciclos do fabricante: Reuso acima do recomendado compromete a qualidade.
Essas etapas complementam a esterilização e garantem que o instrumental permaneça funcional e seguro por mais tempo.
Os novos estudos deixam um recado claro: falhas na esterilização não estão apenas na tecnologia, mas na rotina do processamento e na conservação dos instrumentais.
A ABC acompanha atentamente essas publicações e reforça seu compromisso em orientar boas práticas e fornecer instrumentais de alta qualidade, sempre alinhados com segurança, desempenho e durabilidade.
Ao longo do mês, a ABC continuará trazendo conteúdos educativos para apoiar profissionais de CME, centros cirúrgicos e equipes técnicas na missão contínua de garantir a segurança do paciente.